Crônica10 jun 2026
Desencanto (ou melancia)
Mpor Marcelaqua
● Antônio● o jovem
—Eu como melancia como quem morre.
—Parafraseando Manuel Bandeira, é, seu Antônio?
—E por que não, meu jovem? Você come melancia como o quê?
—Como uma pessoa qualquer.
—Mas em pedaços?
—Sim, para não lambuzar o rosto todo.
—Aí que tá! Que falta do que fazê. Eu como melancia como quem morre. Deixo que ela vá caindo pelo canto da minha boca, que já sentiu muito na vida. Qualé a graça dos pedaços?
—E lá tem que ter graça? É só comer, botar pra dentro, saciar a fome, sabe como é.
—Você come melancia como quem vive e com medo e eu como quem morre satisfeito.
—Assim fica difícil de entender. Quem vive também não vai morrer uma hora? Então comemos melancia de um jeito igual.
—Ah, mas que besteira. Você não vive como quem morre, só sabe que vai morrê.. Por isso que você corta esse negócio delicioso em pedaços minúsculos enquanto eu corto com a boca e saboreio aos poucos.
—Não vejo diferença. Nós dois comemos a melancia, o resultado é o mesmo.
—E você já tira o caroço?
—Mas que diabos de pergunta é essa? É claro que eu tiro o caroço.
—Qual a graça em comer a melancia então? Além de acabar com a primeira boa parte do processo você ainda tira os caroços?
—E por algum acaso o senhor os come?
—Eu não. Bom, às vezes engulo um ou outro, mas não é esse o ponto.
—E qual é então?
—O salto à distância. A segunda coisa mais divertida de comê melancia. Caçá e separá os caroços já dentro da boca pra depois mirá um alvo e tentar acertá. Quem sabe até não dá uma de Sinhá Vitória e fazê um pedido antes de expusá ele da boca.
—Isso é loucura, não tenho tempo pra brincar com a comida, oras.
—Foi o que eu disse.
—Que eu como melancia como quem vive?
—Não, que eu como melancia como quem morre.
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